Triple Helix Part 1: Um Macumbeiro Em Meio A Pesquisadores? / A Macumbeiro Among Researchers

Era uma terça feira e eu estava sentada no escritório do Dr. Vidal. Eu estava pesquisando informações adicionais sobre as amostras que extrairia no dia seguinte, quando o Marcelo entrou. Ele só me conhecia de vista, mas me falou “oi“ no jeito amigável que todos os cariocas falam “oi”. Ele era um aluno do Vidal embora não soubesse o que ele pesquisava, nem mesmo seu nome naquele momento. Ele se sentou a meu lado, começando a digitar no computador que trouxe. Passaram-se dez minutos em silêncio completo, quando entrou outro aluno do Vidal. Gostei muito do Danilo, um jovem de 24 anos. Apesar de seu jeito estudioso , no laboratório sempre fazíamos pegadinhas, enquanto recitávamos letras das musicas funkeiras mais populares. Durante essas sessões de brincadeiras, todos os outros alunos no laboratório sempre nos olhavam com risos forçados; a extração de DNA era um trabalho meticuloso, e eles preferiam o silêncio ao invés das ocasionais risadas estrondosas que saíam de mim e de Danilo.

O Danilo entrou cantando uma musica de Valesca Popozuda e nos falou oi enquanto pegou um livro e decidiu me apresentar ao Marcelo; “Dali, você conhece o Marcelo?” ele disse.

Respondi ao Danilo, enquanto dei um sorriso tímido ao Marcelo, “Infelizmente, ainda não.”

Senti-me meio envergonhada; geralmente, não precisava de ninguém para me ajudar a conhecer pessoas novas, mas naquele momento apreciei a ajuda que fez desaparecer a tensão embaraçosa que já havia se formado na sala.

Marcelo virou pra mim, estendendo a mão, “Prazer” falou.

“Dali, cuidado hein!? Ele  é macumbeiro, viu! Tão tá, tchau gente!” falou o Danilo, saindo tão rápido como entrou.

“Macumbeiro? Não conheço muitos pesquisadores que são religiosos” eu disse. Meu interesse no Marcelo cresceu ligeiramente embora guardasse as minhas dúvidas. Conheci evangélicos, ateus, espíritas, e católicos, mas não havia conhecido nenhum macumbeiro.

“Na verdade, não sou macumbeiro não. Pratico candomblé” falou ele. “E olha, não me considero nem religioso nem espiritual. Só achei que o candomblé era do meu jeitinho” ele continuou.

Assim começávamos uma conversa que duraria quase três horas. Foi nesse momento, quando o Marcelo me disse que praticava candomblé, que as minhas dúvidas sobre ele desapareceram. Embora eu não seja uma praticante, o candomblé foi uma das razões pelas quais vim para o Brasil em primeiro lugar. Lembrei das inúmeras horas em que pesquisei as raízes do candomblé, a minha curiosidade se desenvolvendo sobre um povo que considerava uma conexão a uma parte da minha própria cultura, uma conexão já esquecida pela geração nova de Iorubas. A presença do candomblé é forte no Rio de Janeiro. A energia efêmera dele está ligada intrinsecamente com o samba, enquanto ele sobe de quase todas as fendas da cidade. Existe uma valorização da cultura negra e da religião negra no Rio de Janeiro que eu não tinha testemunhado em qualquer outro lugar do brasil e, inicialmente, a apreciação e familiaridade que eu sentia com essa cultura me confundia tanto quanto me arrebatava. A negação da ligação entre o candomblé e o samba é a negação  da história da criação do samba. Consequentemente, negar a ligação entre o candomblé e os iorubas, é negar as origens do brasil. Lembrava de muitos momentos em que quase chorei depois de ouvir melodias de samba que falavam de Iemanjá e Oxum. Enquanto me sentei ao lado do Marcelo, escutando as palavras dele, senti afinidade com ele. Sendo um praticante de candomblé, ele estava fazendo parte da minha cultura, e imediatamente, de uma forma estranha, eu me senti mais perto dele. Previamente, eu tinha pensado que a cultura e a religião podem ser mutuamente exclusivas, mas deu para compreender o que meus amigos que eram “culturalmente católicos” ou judeus seculares me diziam há anos: às vezes, você não consegue separar suas crenças das suas tradições.

Na Nigéria, Ifa (candomblé) é considerado “a religião antiga”; uma moda que os afrocêntricos do mundo ocidental abraçavam. Atualmente, é difícil encontrar praticantes verdadeiros em um país que está se tornando cada vez mais fragmentado por causa das facções muçulmanas e cristãs. Durante quase  toda minha vida, eu comparava o Ifá como uma religião dos tempos passados; que incluía às vezes ofertas de sacrifício, adoração dos animais e curandeiros. O que não sabia, até que cheguei ao Rio, é que incorporado ao Ifá estava o tecido da minha cultura. A comida, os ritmos musicais e a linguagem que caracterizam a cultura ioruba vinham dos praticantes originais da “velha religião”. A razão pela qual o samba tocava meu coração, me lembrava da voz da minha avó, formava lágrimas nos meus olhos, era porque nas melodias estava ouvindo os sussurros dos meus antepassados. No samba, eu me via. Contudo, houveram momentos que me fizeram sentir incomum, julgada, e me fizeram pensar na identidade que  transmitia aos outros. Houve muitos momentos em que recebi encaradas patéticas quando eu disse que era da “África”. Os proprietários destes rostos continuariam a me perguntar “como a minha família sobrevivia durante todos aqueles anos terríveis de penúria”. Eu tinha que lidar com tal ignorância durante a totalidade da minha vida nos Estados Unidos, e esperei que os brasileiros me tratassem de um jeito diferente, porém a ignorância está em todos os lugares do mundo, apesar das semelhanças. Houve momentos em que o olhar de um fulano desconhecido seria intensificado quando descobria que minhas características exóticas eram complementadas por uma origem nigeriana. Mesmo que estivesse muitas vezes sendo confundida como brasileira, naquele momento, eu era “morenona” dos sonhos dele, pelo menos foi o que ele me disse. A África era uma terra mística, e por ser africana, eu era mas exótica. Como poderia sentir-me verdadeiramente orgulhosa da minha cultura quando, às vezes, eu queria sair dela? Em um instante, a afinidade que tive com o Marcelo se tornou a vergonha. Ele sentou-se frente a mim, compartilhando sua religião e suas raízes afro-brasileiras com orgulho completo, enquanto me senti como se fosse uma impostora. Eu ainda estava aprendendo como ser orgulhosa com minha identidade, e ele não deu conta que ele foi a influência que eu precisava.

**********

It was Tuesday and I was alone in Dr. Vidal’s office. I was researching additional information about the plant samples I would extract the next day when Marcelo entered. We only knew each other in passing, but he greeted meet with the characteristic warmth of all Cariocas. I knew Marcelo was a doctoral student of Dr. Vidal, but I didn’t know what he researched or how long he had been at the Botanical Gardens. He took a seat next to me and started typing on his laptop. I wanted to start conversation, but I chose silence instead. We had been ignoring each other for ten minutes when another student of Dr. Vidal entered the room. At only 24 years old, Danilo was the closest to me in age and demeanor. Despite being a talented researcher, he was a jokester, and my favorite person in the lab. Every day, we would discuss the newest and bawdiest trends in funkeira music as well as play practical jokes on students and faculty. Our irreverent antics resulted in annoyed looks and forced smiles; the meticulous process of extracting DNA from plants was best done in silence, rather than our raucous laughter. While singing a tune by Valesca Popozuda, Danilo entered and greeted Marcelo and I. As he reached across my desk to grab a textbook, he decided to formally introduce me to our other silent companion. “Dali, do you know Marcelo?”

I snuck a timid look at Marcelo while responding, “Unfortunately, not yet.”

I felt childish and embarrassed. Even in a new country, I generally didn’t need anyone to help me meet new people, but, in that moment, I appreciated Danilo’s gesture. The awkward tension that had settled over the room had finally disappeared.

Marcelo turned to me and extended a hand. “Nice to meet you Dali.” Before he could say much more, Danilo interrupted, “Watch out Dali! Marcelo is a macumbeiro! Alright folks, I’ll see you soon enough. Bye!” We watched as Danilo breezed out of the room as quickly as he had arrived.

“You’re a macumbeiro? I don’t know many religious scientists.” I wanted the relaxed atmosphere to continue as long as possible. I had known atheists, Catholics, wiccans, and Evangelicals, but I had never met a macumbeiro before; discovering this element of Marcelo’s personality slowly piqued my interest, although I still retained my doubts.

“Actually, I’m not a macumbeiro. I believe in Candomblé.” He continued, “And look, I don’t consider myself very religious or even very spiritual. Candomblé is just my thing. It’s how I choose to see the world.” The conversation that ensued lasted for three hours. In the moment that Marcelo revealed to me that he practiced Candomblé, surprisingly, my reservations about him disappeared. Although I was not a practitioner of the religion, learning more about Candomblé was one of the principal reasons why I went to Brazil. I remembered the countless hours I spent researching the origins of the religion. My curiosity grew as I learned about a people that shared a connection with my own culture, my own ethnicity.

The presence of candomblé is strong in Rio de Janeiro. Its ephemeral energy is intrinsically linked with samba, floating out of all the cracks and crevices of the city. There existed a valorization of black culture and black religion that I had never witnessed in any other part of Brazil (I had yet to visit the state of Bahia – regarded as the most “African” state in the country). Nonetheless, initially, the appreciation and the familiarity I felt with this “foreign” culture confused me as much as it enchanted me. That is, until I realized that to negate the connection between Candomblé and samba is to negate the history of samba. Consequently, to negate the connection between Candomblé and the Yorubas is to negate the history of Brazil. I vividly remember moments when I almost cried after hearing melodies and choruses of samba music featuring the names of Yemanja and Oxum. These were the names of some of the gods of the old Yoruba pantheon, and I felt the same affinity towards Marcelo while listening to his words. His believing in Candomblé immediately made him a part of my culture; he had metamorphosed into my kin. Previously, I had thought that culture and religion could be mutually exclusive, but I gradually realized what my friends who were secularly Jewish or culturally catholic had come to understand: sometimes you cannot separate your beliefs from your traditions.

In Nigeria, among the Yorubas, Ifá (Candomblé) is considered “the old religion”. The roots and rites of Candomblé have been largely forgotten by the newer generation of Yoruba youths. It has been likened to a fad that afrocentric members of the black diaspora have embraced, but is difficult to find in current life. The nation’s population is split almost equally between Islam and Christianity, and all my life, I viewed Ifá as a relic of ancient times; my environment was one that no longer gave precedence to multiple deities, sacrificial offerings, or medicine women. However, what I had failed to recognize, until I arrived in Rio, was that Ifá was in fact the fabric of my culture. The food, the rhythms, and even the linguistic structure that characterize Yoruba culture come from the old religion. The reason why samba spoke to my heart, why it reminded me of my grandmother’s voice, why it formed tears in my eyes, was because I heard the whispers of my ancestors. I saw myself in samba, but that didn’t protect me from feeling uncomfortable, and sometimes judged about the parts of my identity that were transmitted to others.

There were moments when I would receive sympathetic looks when I said I was from Africa. The owners of these faces would then continue to ask me how I managed to survive the famines, pestilences, and diseases that they thought constantly plagued every inch of the continent. Despite the kinship I felt with Brazilians, I still encountered extremely stereotypical perceptions of Africans. Ironically, there were the moments when African identity resulted in being exoticized rather than pitied. The glances and words of strangers would intensify once they learned that I my “exotic” characteristics were complemented by a Nigerian origin. Africa was coated under a blanket of mysticism, and upon learning that I was born there, I was seen as more appealing or alluring. Those were the moments when my origins felt like a burden, like an advertisement that I was involuntarily placed in.

The affinity I felt with Marcelo slowly turned into guilt. He had excitedly decided to share his story with me. He had felt relief in being able to share his Afro-Brazilian identity and religion with me, and I felt like an impostor. I was still learning to take pride in who I was, and he didn’t realize how he was helping me do so.
-Felicidali

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