Em defesa da mudança / In Defense of Change

“Você mudou.”

Dependendo do contexto da situação, e até mesmo da inflexão da voz do falante, essa frase pode conter as melhores ou as piores palavras a se escutar depois de uma viagem. É uma sentença declarativa que expõe os dois eus (o antigo e o presente), assim como alude ao próprio processo de criar essas identidades. Para mim, é uma frase que é também repleta de implicações, que me forçam a reconhecer a sútil metamorfose pela qual eu passei. Uma vez em particular, sentei em um café esperando uma amiga chegar. Em uma estante desgastada a minha direita, notei uma cuia de mate de alumínio escondida entre uma série de livros das irmãs Bronte. Observei o recipiente familiar até as encadernações dos romances desaparecerem e ser transportada de volta a Puerto Madero, em Buenos Aires. Recordei-me de caminhar ao longo da orla e sentir o aroma das folhas de chá em infusão na água fervendo das cuias de mate. Várias famílias sentavam nos bancos, enroladas em mantas que as protegiam do ar gelado de abril, passando entre si as bebidas quentes. Eu ainda estava me acostumando a ver folhas alaranjadas nas árvores argentinas, no que para mim era a “primavera”, mas ver as mantas e agasalhos e o vapor de chá forçaram minha mente a acreditar que o inverno na América do Sul estava na verdade bem ali na esquina.

“EI, AMIGA!”, estava de volta  à escura cafeteria e a animação da minha amiga me tirou do meu devaneio. Levantei imediatamente e fui tomada por um forte e carinhoso abraço. A distância tinha outro efeito imperceptível em mim: me permitiu esquecer como eu me sentia quando a abraçava. Quando nós finalmente nos sentamos, começamos a conversar sem parar sobre minhas viagens. Resumi para ela onde  estive, o que eu tinha visto e quem foi marcante para mim, enquanto isso ela estava sentada em silêncio. Um largo sorriso apareceu em seu rosto, enquanto ela balançava lentamente a cabeça. Interpretei essa expressão como uma reação negativa a algo que eu havia dito. Fiquei quieta.

“Não, não, continua. Não é nada.”, ela disse.

“Por que você não está dizendo nada?!, questionei. Minha animação tinha desaparecido e eu estava começando a me sentir constrangida.

“Eu só estou absorvendo! Você mudou. Muito!”

Quase que inconscientemente, estreitei os olhos e inclinei a cabeça com seu comentário. Eu? Mudada? Isso era uma nova revelação. Pensei que eu era do tipo estável, segura.

Disfarcei com um “Ah é? Como?”, enquanto deliberadamente tentava mascarar meu tom desconfiado.

Não estava certa se suas observações eram o início de uma crítica, embora minha mente já se preparasse para isso.

“Você tem uma certa gravidade que eu não tinha percebido antes. Você é a mesma pessoa, mas mais madura. Acho que parte daquela ingenuidade jovial foi perdida.”

“Eu sabia que essa minha amiga (que eu considero uma irmã) tinha o dom da eloquência e suas palavras me atingiram direto no coração. Tudo o que ela disse era verdade porque eu senti em meu próprio semblante e, ainda assim, me senti resistindo a isso. Na minha cabeça, o verdadeiro caráter era construído de consistência e, então, que tipo de pessoa eu seria se cada viagem e cada jornada me afetassem tão pessoalmente? Eu presumia que a minha personalidade era construída de um material forte, mas agora parecia que toda adversidade e toda dificuldade eram exibidas descontroladamente em meu corpo.

“Bom, foi uma experiência maravilhosa. Mas, acho que passei por muitas coisas.”

Minha resposta foi morna. Estava resistindo em admitir o crescimento pelo qual eu passei, porque, para isso, teria que revisitar minha dor, o desconforto e, em alguns casos, a angústia que iniciou a mudança. Meus pensamentos retornaram para Puerto Madero. Minha mente tinha se protegido pensando na beleza dos arredores em vez da precariedade da minha situação. Estava em Buenos Aires por causa de restrições de imigração. Não tinha dinheiro suficiente para voltar para os Estados Unidos e fui forçada a deixar São Paulo devido a uma cláusula especial no meu visto de estudante. A burocracia imprevista transformou uma viagem que deveria ter durado somente três dias em um exílio que durou um mês. Para piorar, meu banco nos EUA tinha suspendido minha conta sob a suspeita de que alguém tinha acesso a ela. Eu tive muita sorte de ficar com uma mulher bastante hospitaleira, mas estava bem claro que ela fazia isso por caridade. Foi um período bem preocupante e esperei inocentemente que passasse por minha vida sem deixar ramificações. Pelo contrário, uma maior sensação de imigração e astúcia financeira se estabeleceram em mim. A experiência adicionou massa ao meu ser: me amadureceu em meu otimismo, na benevolência de estranhos e na minha adaptabilidade em situações insuspeitas. O status quo é confortável porque é reconhecível. Quando outras pessoas percebem algo diferente sobre mim, eu entendo mais como uma perda do meu antigo eu do que como uma introdução a um eu melhor. Essas mudanças eram menos manchas do que embelezamentos; elas anunciavam uma transformação em vez de uma digressão.

Minha amiga confirmou meus sentimentos.

“Amiga, eu sei que você passou por muita coisa. Tudo o que estou dizendo é que dá para perceber. E eu acho que você é mais bonita por causa disso.”

-Felicidali

**********

“You’ve changed.”

Depending on the context of the situation, even the inflection of the speaker’s voice, that phrase can be the best or worst words to hear after a journey. It is a declarative sentence exposing two selves (the former and the present) as well as alluding to the very process of creating those identities. For me, it is a phrase that is also riddled with implications, forcing me to recognize the subtle metamorphosis that I have undergone. One time in particular, I sat in a bluesy cafe waiting for a dear friend to arrive. On a worn shelf to my right, I noticed an aluminum mate gourd tucked in between a set of Bronte sisters books. I stared at the familiar vessel until the bindings of the novels disappeared and I was transported back to Puerto Madero, Buenos Aires. I remembered walking along the waterfront and smelling the herbal aroma of tea leaves being seeped into the boiling water of mate gourds. Rows of families sat on benches, draped in woven blankets that shielded them from the chill of April air, passing the hot drinks back and forth. I was still getting used to seeing orange leaves on Argentine trees in what I considered the “spring”, but seeing blankets and sweaters and the steam of tea coerced my mind into believing that the South American winter was actually around the corner.

“HEY SIS!” I was back inside the shadowy coffee shop, and my friend’s excitement jolted me out of my daydream. I immediately stood and was taken into a fiercely loving embrace. The distance had another imperceptible effect on me: it allowed me to forget how her hugs made me feel. Once she and I eventually sat down, we broke into endless chatter about my travels. I gave her a summary of where I had been, what I had seen, and who had made an impression on me, and she sat in silence. A broad smile was painted on her face, as she slowly shook her head. I took the latter expression as a negative reaction to something I had said. I grew quiet.

“No, no, continue. It’s nothing.” She replied.

“Why aren’t you saying anything?!” I questioned. My excitement had tapered off, and I was beginning to feel self-conscious.

“I’m just taking you in! You’ve changed. A lot!”

Almost unconsciously, I narrowed my eyes and tilted my head at her comment. Me? Change? It was a new revelation. I thought I was the steady, dependable type.

I rebuffed with, “Oh yeah? How so?” while deliberately attempting to mask my suspicious tone. I wasn’t sure if her observations were the beginnings of a criticism, although my mind was already preparing for it.

“You have a certain gravitas to you that I hadn’t noticed before. You are the same person, but more grounded. I think some of that youthful naiveté has been lost.”

I knew this particular friend of mine (who I consider an acquired sister) had a flair for eloquence, and her words hit me squarely in the heart. Everything she said was true because I felt it in my own countenance, and yet, I felt myself resisting it. In my mind, true character was built out of consistency, and what kind of person would I be if every trip and every journey affected me so personally? I had presumed that my personality was built of strong material, but it now appeared that every hardship and every difficulty wantonly displayed itself on my body.

“Well, it was a wonderful experience. But, I guess, I did go through a lot.”

My reply was tepid. I was resistant in  admitting the growth I had undergone because it required revisiting the pain, the discomfort, and sometimes the anxiety that initiated the change. My thoughts drifted back to Puerto Madero. My mind had protected itself by reflecting on the beauty of my surroundings rather than the precariousness of my situation. I was in Buenos Aires because of immigration restrictions. I didn’t have enough money to return to The United States, and I had been forced to leave São Paulo because of a special clause in my student visa. Unforeseen bureaucracy extended a trip  that should have only lasted three days into an exile that lasted a month. To make matters worse, my bank in the U.S. had suspended my account under the impression that someone else had access to it. I was extremely fortunate to be staying with a very hospitable woman, but it was very apparent that she was doing so out of charity. It was a deeply troubling time, and I had innocently expected it to pass through my life without lasting ramifications. On the contrary, a heightened sense of immigration and financial astuteness settled on me. The experience added mass to my being: it grounded me into my optimism, into the benevolence of strangers, and into my adaptability in unsuspected situations. The status quo is comfortable because it is recognizable. When others noticed something different about me, I perceived it as a loss of my former self rather than an introduction into a better one. Those changes were less modifications as they were embellishments; they heralded a  transformation rather than a digression.

My friend confirmed my feelings.

“Sis, I know you’ve been through a lot. All I am saying is that it shows. I think you’re more beautiful because of it.”

-Felicidali

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