Lições de vadiagem / Lessons of Loitering

“Então, o que exatamente vocês fazem aqui?”, perguntei. Era uma noite festiva de quinta-feira na Avenida Beira Mar, em Fortaleza, e eu caminhava com um grupo de amigos locais, que conheci enquanto passeava pela cidade no começo daquela semana. O calçadão cheirava fortemente a caranguejos cozidos e uma variedade eclética de frutos do mar. O vento quente encheu meu cabelo de água salgada. A noite tinha caído, e nosso grupo conversava, caminhava e comia de rua em rua, mas eu não conseguia parar de pensar em qual seria nosso destino final. Uma pessoa no grupo respondeu a minha pergunta, “O que você quer dizer?”. Olhei ao meu redor curiosa. Ninguém mais tinha percebido que estávamos vagando desatentamente por, no mínimo, uns dois quilômetros? “Para onde estamos indo? Estamos indo para algum lugar em particular? Quero dizer, vamos fazer alguma atividade específica?” Minhas perguntas vieram uma atrás da outra, porque senti a necessidade de justificar minha curiosidade. Caminhar sem rumo pelo calçadão era simplesmente um procedimento padrão? As palavras desse membro do grupo responderam à minha pergunta, “Percebi isso em você. Você está sempre ansiosa para ir a algum lugar ou fazer alguma coisa. Apenas divirta-se.” E foi isso, ele não disse mais nada. Além disso, falou com uma autoridade tão serena que me senti obrigada a escutar o que dizia. Ele tinha se transformado de um adolescente despretensioso com alargador nas orelhas e vestido com uma camiseta da Cássia Eller em um guru: ordenando paz ao meu espírito inquieto. A maioria das minhas experiências no Brasil, e na Argentina, seguiram uma trajetória semelhante. Nas festas e reuniões em casas que participei, observei como várias rodadas de bebidas eram servidas, os aperitivos desapareciam e as horas passavam, enquanto os anfitriões e seus visitantes permaneciam relaxados, reclinados e extasiados numa atmosfera preguiçosa. Não haviam “drinking games”, atividades para se distrair nem, definitivamente, o “bar-crawl”.

Nos Estados Unidos, até mesmo em momentos de lazer, eu não parava. Eu queria maximizar o tempo. Além disso, sabia que que meu jeito de viver em Atlanta não era nem um pouco ocupado e agitado quanto poderia ser. A Geórgia é conhecida como um estado descontraído, aproveitando-se da sua famosa hospitalidade sulista, mas incomparável com a genialidade lânguida de Fortaleza. Se os sulistas dos Estados Unidos andam passeando, então os cearenses andam devagar quase parando, com uma Devassa numa mão e carne seca na outra.

Durante minha primeira semana de aula no campus da Universidade Federal do Ceará, eu me recordo perfeitamente de sair correndo da sala para almoçar. O campus era tão grande que eu tinha que esperar 10 minutos para um ônibus e mais 15 para chegar na cantina. Um dia em que eu estava particular atrasada, decidi evitar a fila do restaurante universitário e, em vez disso, fui atrás de uma coxinha de um vendedor local. Eu estava extremamente preocupada com o meu tempo limitado. Queria passar uma boa impressão na sala de aula, e não ser rotulada como a estrangeira que não respeitava a pontualidade. Minutos se passavam enquanto eu, de pé, comia furiosamente o máximo de comida que meu estômago poderia aguentar. O tempo tinha acabado. Comecei a correr de volta para a sala, quando uma voz familiar me chamou. Quando me virei, vi meu professor correndo em minha direção, bolas de poeira levantando em volta de seus pés. “Oi professor! Já estou atrasada para sua aula? Eu fiz o máximo para chegar a tempo, mas é que estava com muita fome…” Parei de falar. A massa da coxinha tinha grudado nos meus dentes e eu não queria me envergonhar ainda mais. Ele balançou a cabeça e sorriu. “Não, não, você não está atrasada. Ei! Por que você está comendo e andando ao mesmo tempo?! Sente-se, aproveite. Vamos conversar um pouco sobre a pesquisa que você deseja realizar aqui.” Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Meu professor queria garantir que eu estava aproveitando bem meu almoço, que eu estava saboreando minha comida sem pressa.  

Fortaleza tinha me obrigado a desacelerar o ritmo: que eu sentasse e ponderasse em meus momentos, em vez de me apressar com planos e atividades futuras. Uma pitada de vadiagem era o que temperava as vidas das pessoas ao meu redor, porque, mesmo quando o restaurante fechava, mesmo quando o jogo de futebol acabava, mesmo quando a última refeição era servida, as pessoas permaneciam, jovialmente embriagadas com o calor e a solidariedade da comunidade.

-Felicidali

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“So, what exactly do you do here?” I asked. It was a festive Thursday night on Avenida Beira Mar in Fortaleza, and I was walking with a group of local friends I made while touring the city earlier that week. The boardwalk smelled pungently of boiled crabs and an eclectic assortment of seafood. The warm wind dusted my hair with salt water. Night had fallen, and our group was chatting, walking, and eating from street to street, but I couldn’t help but wonder about our final destination. One member of our group humored my question, “What do you  mean?” he replied. I looked around inquisitively. Had no one else noticed that we had been mindlessly wandering for at least a mile. “Where are we going? Are we going someplace in particular? I mean, is there a specific activity that we are going to do?” My questions came in quick succession because I felt like I had to justify my curiosity. Was wandering around the boardwalk simply standard procedure? His reply gave me my answer, “I noticed that about you. You’re always anxious to go someplace or do something. Just enjoy yourself.” That was it, he offered no more information. Additionally, he had spoken his words with such peaceful authority that I felt obliged to listen to him. He had turned from an unassuming teen with gauges in his ears and a Cassia Eller shirt stuck to his body, to a guru of sorts: ordering peace upon my restless spirit. Most of my experiences in Brazil and Argentina followed a similar trajectory. At the parties and housewarmings I attended, I watched as several rounds of drinks would be served, appetizers would disappear, and hour after hour would pass while the hosts and their visitors remained relaxed, reclined, and enraptured in a lackadaisical atmosphere. There were no drinking games, no tailgating activities, and certainly no bar-hopping.

In the United States, even in recreation, I wanted to move around. Even in my leisure, I wanted to maximize time. Furthermore, I knew that my Atlantan tendencies weren’t nearly as occupied and hectic as they could be. Georgia is known as a laid-back state, basking in its own famed southern hospitality, but it couldn’t compare to the languid geniality of Fortaleza. If southern individuals from the United States strolled, then Cearenses practically sauntered with a Devassa in one hand and a handful of carne seca in the other.

During my first week of classes on the campus of the Universidade Federal do Ceará, I distinctly remember sprinting out of class to eat lunch. The campus was so large that I had to wait 10 minutes for a bus, then travel 15 minutes to the cafeteria. On one particularly late day, I decided to forego the line at the dining commons, and instead went to purchase a coixinha from a local vendor. I was terribly anxious about my time constraint. I wanted to give a good impression in class, not be branded as the crass foreigner who disregarded punctuality. Minutes sped by, as I stood, furiously eating as much food as my stomach could contain. Time was up. I turned on my heels and started jogging back to class when a familiar voice called my name. As I turned around, I saw my professor run towards me, dustballs puffing around his feet. “Oi Professor! Am I late to your class already? I was trying my best to make it on time, but I was just so hungry…” I stopped speaking. The dough of the coxinha had stuck to my teeth, and I didn’t want to further embarrass myself. He shook his head and smiled. “No, no, you’re not late. Hey! Why are you eating and walking at the same time?!  Sit down, enjoy yourself. Let’s briefly talk about the research you want to conduct here.” I could hardly believe what I was hearing. My professor had tracked me down to ensure that I was properly enjoying my lunch, that I was savoring my food without haste.

Fortaleza had compelled me to slow down: that I sit and ruminate in my moments, rather than usher in future plans and activities. A dash of loitering is what seasoned the lives of the people around me, because even when the restaurant closed, even when the soccer game ended, even when the final meal was served: people remained, jovially drunk off the warmth and solidarity of community.
-Felicidali

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