Como Abraçar Em ‘Americano’ / How Do You Hug In American?

“Você não é nigeriana. Você é, definitivamente, uma americana.”Eu tinha nove anos e estava de volta à Nigéria pela primeira vez, depois de muitos anos longe da minha família. Era uma tarde úmida, e minha tia exigiu que meu cabelo fosse trançado. Enquanto eu estava sentada nas escadas de concreto do complexo, uma cabeleireira local puxava meu couro cabeludo. Eu reclamei, resisti e protestei a tarde toda, até que a minha prima interrompeu meu comportamento inadequado com estas palavras. Eu olhei para ela, enquanto minha cabeça estava sendo empurrada de um lado para o outro, e respondi: “Por quê? Somos praticamente iguais! Eu tenho a sua cara!” Era a pura verdade; éramos muito parecidas. Onde quer que fôssemos, as pessoas elogiavam  a nossa semelhança, apesar da distância; como se o Atlântico tivesse o poder de diluir os nossos genes. Ela encolheu os ombros, parou e, em seguida, respondeu: “Quando você fala, você olha os adultos diretamente nos olhos.” Eu fiquei em silêncio, e a cabeleireira suspirou com alívio. Minha prima estava certa. Imediatamente, eu lembrei da vez em que roubei um doce de uma colega de classe. Quando minha professora expôs meu crime e pediu para que eu me explicasse, ela também exigiu que eu a olhasse diretamente nos olhos; o gesto chamaria minha atenção para o que eu fiz e também mostraria a minha honestidade em admitir minha ação. Na Nigéria, tentei me defender de forma semelhante. Eu passei o resto do dia me sentindo repreendida por meu flagrante desrespeito. Minhas ações me traíram. Eu tinha presumido, falsamente, que minhas reações físicas eram universais e que as minhas intenções também permaneceriam autênticas.

“Quanto mais quente o país, mais amigável o povo.” Eu me lembrei desta frase quando estava sentada, conversando com um expatriado dinamarquês no Aeroporto Internacional de Confins, em Belo Horizonte.  Eu e o grupo com que estava viajando estávamos esperando ansiosamente para embarcar em  nosso voo de volta a São Paulo, depois de um atraso desgastante. Eu estava impaciente, indiscreta e curiosa quando sentei ao lado do dinamarquês. Depois de sentar, perguntei o  que ele estava lendo. A minha pergunta foi em português, mas ele me respondeu em inglês. Ele percebeu que meu olhar era de surpresa misturada com aborrecimento e, imediatamente, respondeu: “Eu ouvi você e seus amigos falando inglês. Na verdade, mesmo sem falar, vocês definitivamente são dos Estados Unidos.” Eu fiquei em dúvida,”É mesmo? Você tem certeza? Todos nós poderíamos ser canadenses.” A minha franqueza com um estranho me pegou de surpresa e comecei a me sentir arrependida por ser tão tagarela. “Os canadenses não falam tanto em voz alta e quando os americanos riem, eles sempre causam uma comoção. Todo mundo presta atenção,” ele respondeu. Eu queria terminar a conversa naquele mesmo instante.  Senti como se quisesse me vestir com uma armadura de defesa. “Bem, isto é certamente uma generalização forte. Eu não sabia que éramos tão fáceis de identificar.” Ele notou a minha indignação, mas decidiu continuar, “Não, eu não quis dizer isso dessa maneira. É simplesmente uma observação de um viajante idoso. Olhe para mim. Olhe para o meu povo. Eu decidi deixar tudo o que sabia para trás. Eu não conseguia resistir ao frio, e você conhece o ditado, ‘quanto mais quente o país, mais amigável o povo.’ ” Ele estava certo, eu pensei. Imediatamente, eu me posicionei contra o fato de ser notadacomo diferente das outras pessoas.  Além disso, me senti inquieta; ele tinha conhecido uma parte da minha identidade antes que eu tivesse falado, antes de uma introdução adequada. Ele tinha adivinhado corretamente quem eu era com base no modo como movimentei meu corpo, na minha interação com o espaço e com as outras pessoas. Não foi o primeiro, nem seria o último encontro deste tipo durante as minhas viagens. Eu tive que peneirar diferentes percepções da minha linguagem corporal ‘americanizada’ e, apesar da prática que tive no passado, eu me vi a continuar alterando, corrigindo e tentando questionar como eu me movimentava.

Esta auto-consciência do movimento foi agravada durante meu primeiro cumprimento no estilo carioca’. Sem saber, eu quase beijei um vizinho desprevinido nos lábios, em vez de na bochecha esquerda. Foi uma experiência horrorosa. Eu não sabía quando, nem como, deveria mover minha cabeça, e transformei um cumprimento inócuo num momento de intimidade indesejada. No entanto, depois da prática, quando  me acostumei com o gesto de apresentação, eu passei a apreciar a proximidade compartilhada com outros. Mesmo que eu não conhecesse a pessoa, nós éramosforçados a nos abraçar; éramos obrigados a colocar os nossos rostos próximos um do outro. Eu sei que essa descrição pode causar reações fóbicas, mas  gostei dela. Coloquei o gesto em meu próprio vocabulário de linguagem corporal, uma adição na minha própria versão de afeição. Entretanto, o que eu me recuso a concluir é que tais exemplos de correspondência silenciosa tenham associações definitivas com qualidades intangíveis. A hospitalidade, sinceridade ou a felicidade de um povo nem sempre podem ser interpretadas através da manipulação espacial. A linguagem corporal, como qualquer tipo de linguagem, é um método de comunicação baseado em preconceitos e múltiplas interpretações. É uma ferramenta para revelar as intenções verdadeiras, mas também para escondê-las e manipulá-las, se for necessário. Considere o poder que a linguagem falada e escrita tem para despertar uma miríade de emoções dos ouvintes e leitores. Tem sido o ímpeto de mudança social, enquanto, paradoxalmente, perpetua padrões arcaicos. Além disso, considere a rápida evolução e desaparecimento de línguas novas e antigas, mudando, em velocidades notáveis, os próprios paradigmas de pensamento, inspiração e ideias da sociedade humana. A linguagem é tão caótica quanto estruturada. Por que não tratamos as nossas expressões cinéticas de forma equivalente? Por que a linguagem corporal não consegue representar padrões e, ao mesmo tempo, reconstruí-los? Pode-se confiar plenamente nas implicações de um sorriso, um abraço, um olhar ou mesmo um beijo?

-Felicidali

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“You cannot call yourself a Nigerian. You are definitely an American.” I was nine years old, and I was on my first trip back home after several years of living away from my family. It was a balmy afternoon, and my aunt had ordered my hair braided. As I sat on the concrete steps of the family compound, a local hairdresser pulled at my scalp. I had complained, winced, and protested the entire evening, until my cousin stopped my unruly behavior with her words. I glared at her while my head continued to jerk from side to side. “How come? I look just like you!” It was true, we did look alike. Wherever we went, people would gloat about how similar we were despite the distance, as if the Atlantic was supposed to dilute our genes. She shrugged her shoulders, paused, then replied, “When you speak, you look the adults in the eye.” I fell silent, and the hairdresser sighed deeply with relief. My cousin was right. Instantly, I thought about the time I stole a starburst from a classmate at school. When my teacher exposed the crime and asked me to explain myself, she had also commanded me to look her straight in the eye as I spoke; the gesture would verify my attention to what I had done, as well as my honesty in admitting to wrongdoing. In Nigeria, I attempted defending myself in a similar manner and instead spent the rest of the day scolded for my blatant disrespect. I was betrayed by my actions. I had falsely presumed that my physical motions were universal, and that my intentions would stay authentic.

“The warmer the country, the friendlier the people.” I distinctly remember that phrase as I sat speaking to to a Danish ex-patriot in Confins International Airport in Belo Horizonte. The group I was traveling with and I were anxiously waiting to board our flight back to São Paulo after an exhausting delay. I was being impatient, nosy, and curious when I sat next to the Dane and asked him what he was reading. My question was in Portuguese, yet he replied me in English. He noticed my look of surprise mixed with slight annoyance and immediately countered with, “I heard you and your friends speaking English over there. Actually, even without speaking, you are definitely from The United States.” I furrowed my eyebrows, “Yeah? You sure? We could all be toronta-, um, torontonians for all you know.” My curtness with an absolute stranger caught me by surprised, and I simultaneously began to feel wisps of regret for being so chatty. “Canadians are not as loud, and when Americans laugh, they cause an uproar. Everyone notices,” he replied. I wanted to end the conversation then and there. I felt like suiting up with a coat of defensive armor. “Well, that’s certainly a strong generalization. I didn’t know we were so easy to pick out.” He had noticed my indignation, but decided to continue, “No, I didn’t mean it that way. It is simply an observation of an old traveler. Look at me. Look at my people. I decided to leave all I knew behind. I couldn’t stand the cold, and you know what they say, ‘the warmer the country, the friendlier the people.’ ” He was right, I thought. I had immediately taken up arms against being noticed as different from the rest. Regardless, I felt unsettled; he had known a part of my identity before I had even spoken, before a proper introduction. He had correctly guessed who I was because of how I moved my body, on my interaction with space, myself, and other people. That had not been the first nor was it the last encounter of that kind during my travels. I had to sift through different perceptions of my ‘Americanized’ body language, and despite the practice I had had in the past, I found myself continually altering, correcting, and second-guessing how I moved.

This self-consciousness of movement was aggravated during my first ‘Carioca-styled’ greeting. The shifting caught me unaware, and I almost kissed an unsuspecting neighbor on the lips rather than on his left cheek. I felt like shrinking away in horror. I didn’t know which way to move my head, and had turned an innocuous greeting into a moment of unwanted intimacy. Once I had gotten used to the introductory gesture, however, I appreciated the proximity I shared with others. Even if I did not know the individual, we were forced to embrace; we were forced to place our faces next to each other. I know that description may cause phobic reactions with some people, but I enjoyed it. I welcomed it into my own personal body vocabulary, a highlight to my own version of affection. Nonetheless, what I refuse to conclude is that such examples of silent correspondence have definitive association with intangible qualities. The hospitality, candor, or happiness of a people cannot always be interpreted through their spacial manipulation. Body language, like any kind of language, is a method of communication ultimately based on biases and multiple interpretations. It is a tool to reveal the truest intentions, but also to hide and manipulate them if needed. Consider the power of spoken and written language  to rouse a myriad of emotions from listeners and readers. It has been the impetus of social change, while paradoxically perpetuating archaic standards. Further consider the rapid evolution and disappearance of novel and ancient languages, mutating the very paragons of thought, inspiration, and ideas of human society at remarkable speeds. Language is as chaotic as it is structured. Why don’t we treat our kinetic expressions in an equivalent way? Why can’t body language represent patterns while simultaneously reconstructing them? Can one fully trust the implications of a smile, an embrace, a glance, or even a kiss?

-Felicidali

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