O Idioma do Seu Coração / The Language Of Your Heart

Eu grito em português. Eu não sei como esse hábito começou mas sempre quando eu fico num trânsito ruim, quando eu tenho tarefa que eu não quero fazer, ou mesmo quando pequenos dramas da vida precisam de mais pontuação; eu digo: “AI GENTE DO CÉU! AI MINHA NOSSA SENHORA! AI JESUS ​​CRISTO! ” Aquele ditado distintamente católico de alguma forma ou outra se estabeleceu na “córtex de frustração” do meu cérebro. O ditado dos estados unidos,”Are you kidding me?!” simplesmente não é suficiente. A minha aflição só pode ser alivida pelos “corpos celestes” e pela padroeira nacional do Brasil. A frase tornou-se tão onipresente com minha “luta” diária que eu começei recitá-la com outros falantes de inglês. Muitas vezes, eles me responderam com olhares curiosos e com a questão, “O que que você acabou de dizer?” Quando eu respondo que é português que eu estou falando, a próxima pergunta sempre é: “E aí? Por que você está falando português?” Inevitavelmente, a pergunta sempre me pega desprevenida. A resposta, “Eu era uma aluna super entusiasmada de linguas estrangeiras” não só me pinta como uma sincofanta linguística, ela não abrange inteiramente o que a experiência e, subseqüentemente, a língua, ainda significam para mim. Pior ainda, eu sinto que preciso defender a minha fala. As controvérsias sobre a apropriação cultural e identidades “trans-raciais” têm colocado um foco nos “Urubus Culturais”, ou seja, aquelas pessoas que abraçam algo que não define suas próprias experiências vividas. No entanto, eu quero saber quais posições o multiculturalismo e o “multi-lingualismo” ainda têm nessa conversa. Geralmente, a linguagem é vista como um meio menos potente. Os delitos egrégios de usar os chapéus tradicionais dos indígenas para festivais de música, de usar bindi como ornamento de Halloween, de usar sombreros mexicanos para as festas “temáticas”, e de usar tinta para escurecer a pele, esses exemplos já foram documentados e discutidos. Fotos e exemplos dos perpetradores culturais têm sido compartilhados extensivamente nas redes sociais; e o consenso geral entre os acadêmicos é que estas caricaturas de determinadas culturas, etnias e raças são extremamente ofensivas. No entanto, é possível apropriar um idioma? Quando usado fora de seu contexto normal–fora da área de origem do idioma ou entre falantes não-nativos–como o idioma muda? Será que os idiomas podem ser explorados como cocares ou roupas?

A linguagem habita um espaço nebuloso, porque ao contrário de uma etnia ou raça, a linguagem é  mais fluida e facilmente adquirida. Outros animais se comunicam, mas o uso de sintaxe, contexto e semântica é um processo cognitivo que só os humanos têm conquistado. No entanto, assim como etnia, e, assim como raça, a linguagem é um reflexo e uma determinação da vida de uma pessoa. Os prefixos latinos de -bi, -tri, e -quad, são usados ​​com “língue”, assim como são usados ​​com “racial”. Um indivíduo pode ser biracial e quadrilíngüe. Muitas vezes, o identificador ‘biracial’ nos diz um pouco sobre a diversidade cultural da pessoa e talvez até as características físicas do indivíduo, contudo, o que nos diz o identificador “quadrilíngue”? Deixe-me usar eu mesma como exemplo. A grande maioria das minhas interações diárias são realizadas em Inglês Americano. Ao pensar analiticamente, eu penso em Inglês. Ao escrever, eu escrevo em inglês. A maioria das notícias que eu escuto, a televisão que eu assisto, e os livros que eu leio, são escritos e falados em Inglês. Eu me expresso com verbos em inglês; e eu me descrevo com adjetivos em inglês. A minha realidade é vestida com este idioma particular até o momento que eu passo a pé  em minha casa. Em casa, eu uso palavras de origem Bantu. O inglês gosta de demorar; ele gosta de distorcer meu sotaque quando eu falo minha língua nativa com meus pais, mas ele começa ter um papel inferior. Frases como, “Como você está?” são transformadas à “A paz está com você?” A entonação da minha voz muda, e eu afirmo um diferente ritmo linguístico. Quando eu estou com sono, o iorubá domina completamente; e nos momentos antes de fechar os olhos, o inglês desaparece.

Entretanto, há dias quando o inglês tem que lutar. Há dias quando eu falo no telefone com meus primos dominicanos e estou bombardeada com espanhol do caribe. Quando eu falo espanhol, eu penso sobre comidas caribenhas e da música salsa. E não vamos esquecer do português. Sempre que eu encontro um brasileiro, a minha identidade “étnica” muda completamente. Eu sou imediatamente uma angolana ou uma carioca. Me lembrei de vários casos no Brasil quando eu divulgaria minha identidade “americana” aos meus vizinhos descrentes. “Sim, mas você não pode realmente ser americana”, foi a resposta freqüente. Apesar dos meus erros em falar, a cor da minha pele e meu “jeitinho” uniram forças e criaram uma identidade completamente nova. Quando eu morava no Ceará, eu jamais era a menina nigeriana criada nos Estados Unidos, eu me tornei uma estudante angolana estudando em Fortaleza. Quando eu conversar em espanhol, minha nacionalidade muda mais uma vez; agora, Haiti é o país preferido. Embora que o espanhol e o português geralmente abranjam mais variações raciais do que línguas como o hindi ou o coreano, meus exemplos ainda representam o poder da linguagem. É parte integrante da identidade. Como estrangeira, se eu falar bem e se eu  escolher meticulosamente um vocabulário certo, eu me tornarei um membro bem-vindo a uma experiência que eu não tinha ao longo da vida. O processo é gratificante, mas também pode ser frustrante, porque eu assumo características com as quais eu não nasci. Quando eu mantenho essas identidades simultâneas, minha lingua maternal compete cada vez mais como meu modo preferido de auto-expressão. Sim, a auto-expressão é essencial, mas assim é o respeito. Será que eu ficaria ofendida se uma mulher não-nigeriana ganhasse aclamação crítica por escrever um livro em iorubá? E se a palavra “beleza” tornou-se popular nos Estados Unidos sem reconhecer as raízes brasileiras da palavra? Será que todos os artistas do hip-hop merecem usar a palavra “nigger”? Apesar da sua elasticidade, a linguagem ainda personifica espaço. Ela ainda leva peso, ainda conforma com determinados paradigmas, e ainda carrega muitas conotações.A linguagem é tanto interna quanto externa, e conforme os laços entre nossas sociedades se estreitam, as nossas línguas vão evoluir, e nós também.

Por Felicidali

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I yell in Portuguese. I don’t know how it happened, or when I started the habit, but whenever I am stuck in a difficult commute, whenever I have a task that I don’t want to do, or even when life’s little dramas need extra punctuation, I resort to: “AI GENTE DO CEU! AI MINHA NOSSA SENHORA! AI JESUS CRISTO!” The distinctively Catholic saying somehow settled into the “frustration cortex” of my brain. A U.S. American “ARE YOU KIDDING ME?!” simply doesn’t suffice. My vexation can only be alleviated by beckoning celestial bodies and the patron saint of Brazil for assistance. The phrase has become so ubiquitous to my daily “struggle” that I catch myself reciting it amongst other English speakers. Often, I am met with quizzical looks, and a “What did you just say?” When I reply that it is Portuguese I am speaking, the next question is always, “Why are you speaking Portuguese?” Inevitably, the question always catches me off guard. The answer, “I was an over-enthusiastic study abroad student” not only paints me as a linguistic sycophant, but it doesn’t fully encompass what the experience, and subsequently, the language, still means to me. Even worse, I feel like defending my speech. The controversies surrounding cultural appropriation, and “trans-racial” identities have put an understandable spotlight on “culture-vultures “, on embracing something that doesn’t define your lived experiences. However, I cannot help but wonder what places multiculturalism and multi-“lingualism” hold in the conversation. Usually, language is seen as a less potent medium. The egregious offenses of wearing traditional Native American headdresses to music festivals, of using bindis as Halloween embellishments, of wearing sombreros to Mexican “themed” parties, and of performing in “black-face” have been documented and discussed. Pictures and examples of cultural perpetrators have traveled extensively on social media sites, and the general consensus among academic circles is that these caricatured displays of certain cultures, ethnicities, and races are extremely offensive. However, is it possible to “appropriate” language? When used outside of its normal context (outside the language’s native area, or amongst non-native speakers), how does language change? Can language be exploited like headdresses or garments?

Language inhabits a more nebulous space because unlike one’s ethnicity or race, language is more fluid and much more easily acquired. Other animals communicate, but the use of syntax, context, and semantics is a cognitive process that only humans have conquered. Nonetheless, just like ethnicity, and just like race, language is a reflection and a determination of a person’s life. The latin prefixes of -bi, -tri, -quad, are used with “lingual” just as they are used with “racial.” A biracial individual can be quadrilingual. The biracial identifier can tell us the diverse cultural background and perhaps even the physical traits of the individual, but what does “quadrilingual” say about her? I will use myself as an example. The vast majority of my daily interactions are conducted in American English. When thinking analytically, I think in English. When writing, I think in English. The majority of the news sources I visit, the television shows I watch, and the books I read are written and spoken in English.  I express myself with English verbs, and I describe myself with English adjectives. My reality is coated with this one particular language until the moment I step foot in my home. At home, I am transported to words of Bantu origin. English likes to linger, it likes to distort my accent when I speak my native tongue with my parents, but it starts to take an inferior role. Phrases like, “How are you doing?” are morphed into, “Is peace upon you?” The intonation of my voice changes, and I feel myself assert a different linguistic rhythm. When I am sleepy, Yoruba completely dominates. In the moments leading up to closing my eyes for a night’s rest, English disappears.

Then there are days when English has to fight. There are days when I speak to my surrogate Dominican cousins on the phone and I am bombarded with heavily Caribbean-styled Spanish. When I speak Spanish, my mind drifts to platanos and old-school salsa music. And let’s not forget Portuguese. Whenever I meet a Brazilian, my “ethnic” identity completely changes. I am immediately an Angolan or a Carioca. I remember several instances in Brazil when I would divulge my ‘American’ identity, only to be met with disbelief. “Yeah, but you can’t REALLY be American” was the frequent reply. Despite my obvious errors in speaking, the color of my skin and the way I spoke joined forces and created a completely new identity. When I lived in the state of Ceará, Brazil, I was no longer the immigrant child of Nigerian parents, who was raised in the United States; I became an Angolan student studying in Fortaleza. When I converse in Spanish, I change nationalities once again; this time Haiti is the preferred country. Granted, Spanish and Portuguese generally encompass more “racial variations” than languages like Hindi or Korean, but this still represents the “blurring” power of language. It is integral to identity. As an “outsider”, if I speak well enough, and if I meticulously choose the right vocabulary, I become a welcomed member to an experience that might not have been life-long. The process is rewarding, but it can also be frustrating, because as I assume a characteristic that I was not born with, as I maintain these simultaneous identities, the language I was actually ‘born with’ increasingly competes as my chosen mode of self-expression. Yes, self-expression is essential, but so is respect. Would I get offended if a non-ethnically Nigerian woman gained critical acclaim for writing a book in Yoruba? What if the word ‘beleza’ became popular in the United States without properly acknowledging the word’s Brazilian roots? What about rappers and hip-hop artists of the Arab speaking world using the N-word? Despite its elasticity, language still embodies space. It still carries weight, still conforms to particular paradigms, and still bears certain connotations. Language is as much internal as it is external, and as our global societies continue to engage in discourse, our languages will evolve, and so will we.

By Felicidali

4 thoughts on “O Idioma do Seu Coração / The Language Of Your Heart

  1. AI GENTE DO CÉU! MINHA NOSSA SENHORA! What a brilliant way to put into words what it feels like when you are sruggling to feel comfortable in speaking/using a language that is not your own… Oh, how do I miss you, Felicidali!!!

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