A vida boêmia : La Vie Boheme

O  domingo passado, um amigo e eu estivemos jantando numa pizzaria. Quando estamos juntos, a conversa sempre gira sobre nossas ideIas, sonhos, e as nossas falhas. Nós nunca falamos de tabloides nem esportes. Os assuntos sempre são densos, viscosos, e inevitavelmente otimistas; é simplesmente a natureza de nosso relacionamento. Estávamos rememorando nossos passados e pensando sobre nossos futuros. Por cima do barulho de crianças e da prataria, concordamos que éramos realmente felizes quando as coisas eram simples; quando os nossos trabalhos eram significativos, quando a cada fim de semana viajávamos para destinos desconhecidos. Nós odiavámos a vida diaria; uma vida cheia de trabalhos sem graça, sem progresso. Uma vida que tem um alvo único: a sobrevivência até sexta-feira. De repente, meu amigo me lançou um olhar desesperado. “E aí? O que houve?”. Ele me respondeu, “Eu não sei se vai dar certo, essa vida boêmia que a gente está planejando para o futuro. Sabe, eu não acho que é sustentável, esse tipo de vida. No passado, gostávamos da experiência  porque sabíamos que iria acabar. Havía um entendimento imperceptível que tudo ia terminar. Não sei se é possível recriar aquele sentimento, aquela liberdade.”

Eu não acreditei no que eu estava escutando. Eu discordei. Eu discordei veementemente. Ele havia ofendido as minhas lembranças favoritas, além disso, ele colocou em questão o que eu considerei meu propio destino. Eu sempre me sentia feliz quando lembrava da minha vida descomplicada em Fortaleza e no Rio de Janeiro. Quando eu voltei para os Estados Unidos, essas mesmas lembranças me ajudaram a perseverar nos momentos estagnados; elas me deram inspiração para continuar meus sonhos de viajar de novo. Contudo, as palavras do meu amigo me agarraram pelos ombros e me forçaram a considerar as alternativas. Será que eu nunca terei uma casinha no oceano pacifico? Será que eu nunca abrirei uma clínica para crianças doentes em Jericoacoara? Será que eu não vou aprender do ferreiro no país de Gales? No momento em que eu destaquei todas essas ambições, me dei conta que elas foram absolutamente ridículas. Porém, eu nunca considerei praticidade. A praticidade implica um reconhecimento da ‘realidade’. Um reconhecimento de como são as coisas e como elas continuarão a ser. A praticidade implica uma volta a sanidade.

Meus pensamentos estavam desorganizados. Eu estava desorientada, confusa. Como resposta às perguntas do meu amigo, a minha mente disse para mim “Talvez minha própria praticidade era arraigada num universo diferente. Talvez a minha versão de insanidade era a aceitação dos padrões impostos pela sociedade. Talvez minha imprudência era rebeldia, ou talvez era medo freudiano da responsabilidade.” Acabou. Eu desisti. Eu cansei das dúvidas porque eu já sabia a resposta, meu amigo sabia a resposta também. Por alguns momentos, nós dois sentamos em silêncio. Vagarosamente, ele começou sorrir. Quando nossos olhos se encontraram, ele falou, “Eu tava brincando. Eu sei que nosso caminho será diferente do que o do resto das pessoas.”

O boêmio e a boêmia são a inquietação personificada. Eles são iconoclastas; são desertores e piratas. Não ache que os boêmios são estúpidos, indisciplinados, ou sem inspiração. Ao contrário, a imaginação deles não cabe num vaso só. A vista deles é panorâmica. Eles acreditam que o sistema atual é inorgânico. Eles esquecem das comodidades da vida para procurar o poder purificador do estresse, do conflito, e dos desafios. Eles são beijaflores, flower-kissers, hummingbirds, movendo de um lugar a outro. As vezes eles ficam suspensos no ar, por cima dum desejo, mas se não é suficiente, os boêmios correm atrás duma flora nova. Os boêmios não são raízes, são meristemas apicais. Eles são apêndices crescendo pelo dossel da floresta. Talvez o sol vai queimá-los, mas eles suportarão o calor e a luz, porque eles já chegaram no precipício. Eles estão jantando da vista.

(June. 6. 2015 por Felicidali)

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A friend and I were sitting in a pizzeria last Sunday, musing over ideas, dreams, and failures. This is the nature of our relationship. No tabloid or sports talk, every time we see each other, the conversation inevitably becomes dense, viscous, and dripping with our insatiable optimism. We had been reminiscing about our pasts and ruminating about our futures. Over the hum of petulant children, and noisy silverware, we had agreed that we were our happiest when things were simplest. When travel and meaningful work were the sustenance we ate for cereal every morning. We lamented the traditional workday, the 40-hour workweek, the survival until Friday.  A forlorn look passed his face.  “What was that look about?” I asked. His eyes met mine, “I just wonder if it’s sustainable: this bohemian life we have pictured for ourselves. In the past, we enjoyed it because we knew it was going to end. There was an imperceptible understanding that it wasn’t going to last. I don’t know if I can recreate that feeling again.”

I shook my head back and forth. I vehemently disagreed with him. He had offended one of my favorite memories, and queried what I considered to be my destiny. I was buoyed by recollections of how simple and happy life was in Fortaleza and Rio de Janeiro. Once I had returned home, I had persevered through mental, personal, and creative stagnancy because I wanted to further continue my vagabond aspirations. Yet, his words grabbed me by my shoulders and forced me to consider the alternative. I won’t have a small house in the South China Sea? I won’t open a clinic in Jericoacoara, Brazil? I won’t learn about blacksmithing in Wales? Once I listed them out, I realized how ridiculous my ambitions appeared, but ‘practicality’ was never a consideration. Practicality implied a recognition of ‘reality’, of the true nature of how things are and what they will continue to be. Practicality called for a return to sanity.

My thoughts were scrambled. My mind raced. In response to his questions, I thought, “What if my pragmatism was rooted in a different universe? What if my version of  insanity was allowing societal expectations to cover my heart like a vine? Maybe my restlessness was defiance, perhaps it was as a Freudian fear of responsibility.” That was enough. I shook my head out of the fog of doubt. I knew the answer already, he knew it too. We sat in silence. Slowly, a smile pulled at his eyes. He turned to me, “Nah. I’m just kidding. I think we are meant to do things a little differently than the rest.”

The bohemian and the bohemienne are wanderlust personified. They are iconoclasts. They are defectors and marooners. Do not conclude that les bohemes are unintelligent, uninspired, or undisciplined. On the contrary, their “fantasies” are too grand to be contained within one vessel. Their scope is panoramic. They believe that there is nothing organic about the current system around them. They forgo amenities and comforts to masochistically seek the purifying power of stress, conflict, and challenge. They are beija-flors, flower-kissers, hummingbirds, zipping from one place to another. They are sometimes suspended in air, over a particular desire, but if it is not enough, they seek flora elsewhere. They are not roots. They are apical meristems. They are shoots growing towards the forest canopy. The sun’s rays might burn them, it might cause les bohemes discomfort, but they will withstand the heat and light because they have reached the precipice. They are dining off the view.

(June. 6. 2015 by Felicidali)

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